quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Dois anarquistas são presos na Rússia, um está em greve de fome
[O Serviço Federal de Segurança (FSB), agência russa de inteligência que sucedeu a KGB em relação a assuntos domésticos, tenta fabricar uma farsante rede de terror anarquista-tchecheno, e prende dois anarquistas.]

Em 14 de agosto a polícia russa prendeu Andrei Kalyonov e Denis Zeleniuk, ambos da Liga Anarquista de São Petersburgo. Eles estavam se dirigindo para o Congresso da Associação dos Movimentos Anarquistas em Yaroslavl,
seção russa da Internacional de Federações Anarquistas, a IFA. Faziam uma viagem de poucos gastos em trens locais e estavam perto da cidade de Malaya Vishera, quando foram cercados por policiais e detidos. Khasan Didigov, um checheno que mora em Novgorod, também foi preso separadamente.
No dia 13 de agosto de 2007, o trem Nevsky Express foi descarrilado após uma explosão que ocorreu debaixo de seus trilhos. A explosão aconteceu a poucos quilômetros da estação de Malaya Vishera.

Por todos os ângulos em que olharmos este caso, Andrei e Denis somente estavam no lugar errado e na hora errada. Aparentemente a polícia estava procurando por “pessoas suspeitas” em volta daquela área e os encontrou. Eles estavam usando um manto palestino e foram sarcásticos quando a polícia começou a questioná-los. Testemunhas que notaram “pessoas suspeitas” próximas ao trem antes da explosão ajudaram as autoridades a especularem sob algumas pistas, retrato falado dos procurados; embora eles não parecerem com os suspeitos, eles foram levados.

Veja no link a seguir que um dos anarquistas detidos não se parece em nada com os retratos falado, compare você mesmo: http://cia.bzzz.net/rosja_policja_zatrzymala_dwoch_anarchistow_bez_podstaw

Quando se revelou que eram “perigosos anarquistas” eles foram detidos. O apartamento de Andrei em São Petersburgo foi arrombado e revistado. Desde que ambos anarquistas haviam tido alguns problemas com a lei anteriormente e participaram em protestos antiguerra semanais, o Serviço Federal de Segurança está tentando achar uma ligação entre os anarquistas e os terroristas tchechenos.
Na verdade não há informações seguras – tudo que as pessoas sabem vem dos contatos pessoais com jornalistas, que por sua vez tem contatos pessoais com o Serviço Federal de Segurança.
Foi dito que eles seriam presos por pelo menos 30 dias. Isto é, presumivelmente, o tempo necessário para investigar e decidir se compele as acusações. Para tais detenções, a lei permite que isto ocorra em casos de terrorismo.
Nós iremos tentar obter mais informações, mas tudo está sendo mantido em segredo. Se eles não forem soltos logo, nós pediremos para que todos façam manifestações de solidariedade ou enviem mensagens.

Comunicado da Iniciativas Anarquistas de São Petersburgo em 22 de agosto de 2007
Nós, membros da Iniciativas Anarquistas de São Petersburgo, rechaçamos categoricamente todas as acusações que se referem aos nossos companheiros Andrey Kalyonov e Denis Zeleniyuk, e declaramos sua completa não participação na explosão do trem Nevsky Express.

As convicções anarquistas não propõem manifestações violentas contra o povo inocente. A propósito, em 13 de agosto de 2007, Andrey Kalyonov e Denis Zeleniyuk, estavam em São Petersburgo e este fato pode ser confirmado por algumas testemunhas. Nossos companheiros se encontravam na comarca de Malaya Vishera porque iam a cidade de Yaroslavl, para participar no Congresso das Associações dos Movimentos Anarquistas.

Qualificamos esta detenção como um ato ordinário de agressão da parte do regime autoritário do Estado. Os policias efetuaram uma revista no apartamento de Andrey Kalyonov violando sua própria lei. Eles forçaram a porta e usavam os policias municipais como testemunhas desta revista, ainda que os vizinhos de Andrey estavam dispostos a fazer isto.
O auto de registro não foi apresentado a mãe de nosso companheiro, por isto todos as "provas" que foram encontradas no apartamento não podem ser legais, porque os policias atuaram em ambiente de arbitrariedade e poderiam colocar no lugar da prova tudo o que quisessem.

Colocamos sobre o Serviço Federal de Segurança (FSB, ex-KGB) e
Ministério dos Assuntos Interiores, toda a responsabilidade pela provocação
contra nossos companheiros. Esta explosão pode ser aproveitada só aos que
querem tumultuar a situação no país antes das eleições parlamentares e presidenciais, porque seu objetivo principal é ficar no poder na Rússia a todo custo. Esta gente não se detêm ante nada, cometerá qualquer crime, provocações e atos terroristas.

Chamamos as ações solidárias com os anarquistas detidos. Um deles,
Andrey Kalyonov, declarou-se em greve de fome.

Liberdade a nossos companheiros!
Alguma notícias atuais de São Petersburgo
Andrey Kalyonov já está a 10 dias em greve de fome. Há informações que estão tentando forçá-lo a se alimentar.
Tanto Andrey como Denis estão agora numa cadeia em Novgorod. O endereço é: Bolshaya Peterburgskaya, fone 7 25A (8162) 984900.
Ambos anarquistas agora têm advogados que representam seus interesses. É necessário levantar cerca de 3 mil euros para cobrir as despesas legais.
Um grupo de anarquistas preocupados com o caso de Andrey e Denis decidiram criar a Cruz Negra Anarquista de São Petersburgo.
Neste último domingo, 26 agosto, na tradicional concentração do Comitê Anti-Guerra no centro de São Petersburgo, aconteceu um piquete de informação sobre o caso e pela liberação dos anarquistas detidos.
Conta de apoio aos anarquistas
Bank VTV24 (JSC)
In favour Acc 30301 840 2 00001060000, St.Petersburg, Russsia Bank
VTB24(JSC) Branch7806
Swift: CB GU RUMM
Beneficiary 40817978603060007327 Варгина Екатерина Ионовна
Tradução: Marcelo Yokoi e Juvei

quarta-feira, 2 de maio de 2007

manifestação de 1 de maio em Moscou. Bloco anarquista.

Paz aos povos. Guerra aos governos.


Paz ao mundo.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Manifestação 7 de abril em Moscou


7 de abril em Moscou aconteceu uma manifestação de protesto contra a guerra na Chechênia.
O dia foi escolhido para lembrar três trágicos acontecimentos relacionados a esta data.

Em 7 de abril de 1995 os moradores de vila Samachki na Chechênia foram massacrados pelo exército da Federação Russa. Foi primeira operação de limpamento que causou a morte de 103 moradores. Até hoje ninguém foi julgado pelo crime.
Fotos e texto em russo:
http://voinenet.ru/index.php?aid=5648
Texto em inglês sobre o limpamento em Samachki:
http://www.memo.ru/hr/hotpoints/chechen/samashki/engl/

7 de abril faz meio ano desde que Anna Politkóvskaia, jornalista russa que denunciava a guerra na Chechênia, foi assassinada.

7 de abril é o aniversário de Mikhail Trepáchkin, preso político. Este homem foi da FSB, polícia russa, e participou das investigações de explosões dos prédios residenciais em Moscou, Volgodonsk e Buinaisk em 1999. Das explosões foram acusados os chechenos. As explosões serviram de pretexto para o começo da segunda invasão do exército da Federação Russa na Chechênia. As explosões possibilitaram a eleição de Pútin para a presidência.
Trepáchkin foi preso em 2003 quando pretendia divulgar as informações que revelavam a participação do governo da Rússia e da FSB nas explosões.
Participaram do protesto mais de 500 pessoas!!!!!

quarta-feira, 21 de março de 2007

Notas sobre as atividades de denúncia da guerra na Tchetchênia em Portugal e Espanha


Entre os dias 15 de fevereiro e 03 de março foram realizadas uma série de atividades de denúncia da guerra na Tchetchênia em Portugal e Espanha: conversas, debates, exibição de filmes e fotos relacionados a um dos conflitos mais intensos e silenciados na atualidade. Enquanto a invasão do Iraque e o genocídio de seu povo é televisionado e noticiado para o mundo, a guerra na Tchetchênia escapa aos documentaristas e aos jornalistas – mesmo porque as estratégias de terrorismo de Estado em curso na Rússia impossibilitam os poucos trabalhos e as poucas vozes dissonantes possíveis neste momento.

Dessa maneira procuramos alguns centros de cultura social para compartilhar as informações sobre a guerra na Tchetchênia – informações sintetizadas na publicação “Terrorismo de Estado na Rússia: a guerra na Tchetchênia nos descaminhos da indústria da violência”, organizada a partir da Ação Literária pela Autodeterminação dos Povos, e que resultou de longas pesquisas, ações e vivências na Rússia com movimentos anti-militaristas e ativistas ligados à defesa dos direitos humanos na Tchetchênia.

Tanto em Sevilha e Málaga (Espanha), como nas cidades do Porto, Aljustrel e Lisboa (Portugal), encontramos movimentos e coletivos que nos receberam com comovente solidariedade – e que demonstraram a viabilidade prática e cotidiana dos princípios de autoorganização, ação direta e luta anti-capitalista na ocasião dos encontros, nos debates e na hospitalidade.

Os frutos desses encontros não colheremos neste momento, até porque o tema da guerra na Tchetchênia foi abordado sempre de maneira ampla. Procuramos estimular outras temáticas, trocar materiais e publicações diversas, dinamizar os espaços de luta social e semear futuras ações e intervenções. Assim, agradecemos a todos pelo auxílio e pela possibilidade de realização destas atividades, e esperamos até o mês de agosto realizar outras intervenções que possam celebrar a vida e a resistência nas terras do norte.

Agradecimentos especiais: Ana (Sevilha); Centro Social Ocupado e Autogestionado Casas Viejas; Carlos (Málaga); Centro Social em Málaga; Samuel, Paula, Miriam e David (Aljustrel); Centro de Cultura Anarquista Gonçalves Correia; Cristina e tod@s de Casas Vivas (Porto); José Maria e
tod@s da BOESG (Lisboa).

quarta-feira, 14 de março de 2007

Imperialismo russo e a guerra na Chechênia: os descaminhos da indústria da violência


Os povos das montanhas do Cáucaso Setentrional – chechenos, inguches, ossetas, kabardinos, balkaros, karatchai, cherkesse e outros – sempre representaram entraves para as tentativas imperialistas euro-asiáticas: resistiram aos impérios tártaro-mongol, turco-otomano, russo e soviético. A geografia auxilia nas estratégias de resistência. A região montanhosa dificulta o acesso para as tropas dos invasores, enquanto as formas seculares de auto-subsistência das comunidades tradicionais colaboram para a sobrevivência. Pastores nômades e agricultores, estes povos organizavam-se através de conselhos das comunidades. Foram enquadrados como bárbaros e “atrasados” não só pelo Império Russo que tentou dominá-los durante longa e sangrenta Guerra do Cáucaso (1817-1864), mas também pelos dirigentes da União Soviética que se opuseram à criação de uma República Autônoma dos Montanheses, logo após a revolução de 1917.
Com a desintegração da URSS, a Chechênia novamente proclama a independência. Mas o poder imperial somente trocou de nome porque, em 1994, as tropas russas invadem a Chechênia. Começa a guerra, que dura até hoje, com um saldo de 100.000 mortos e feridos e fazendo cerca de 500.000 refugiados.


Comunidades tradicionais na Tchetchênia

A estrutura social das comunidades tradicionais na região da Chechênia e do Cáucaso Setentrional é formada por teipes. As teipes podem ser compostas por diversas famílias e, além disso, aceitam outros agregados em sua composição social, provindos de outras regiões.
As teipes são constituídas por uma vila ou por um conjunto de vilas. Todas as questões cotidianas referentes aos seus habitantes são decididas nos conselhos, compostos pelos anciãos das teipes e, em alguns casos específicos, por outros representantes da comunidade. O Conselho dos conselhos legisla sobre questões que envolvem o coletivo das teipes. Forma-se, ainda, o Conselho Maior, congregando todos os povos das montanhas.
A organização horizontal dos povos das montanhas se contrapunha às tentativas de estabelecimento de um Estado ou outras formas de hierarquização institucional. No caso de guerra, escolhe-se um líder, a quem todos os habitantes juram lealdade militar. A terra, as águas e os bosques pertencem aos habitantes das vilas. As tarefas de subsistência são realizadas pela própria comunidade, baseadas essencialmente na plantação de batata, milho e trigo, além das atividades pastoris. Pelas torres de pedra, a segurança da comunidade se faz através de atenta observação do território.

O Estado na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS): militarização, repressão e russificação

Após a criação da URSS, o processo de russificação e militarização no continente foi abrupto e violento. Abrupto por interromper e subjugar povos e comunidades que, por séculos, desenvolviam suas diversas formas de auto-governos. Em poucos anos, esse exercício de autonomia social foi substituído pela heteronomia estatal soviética (tal processo não fora exclusividade das ações do PC Soviético: em outros continentes, a formação e o desenvolvimento do Estado-nação caracterizou-se, essencialmente, pela usurpação das habilidades de auto-governo de comunidades tradicionais). Violento porque tais comunidades, descentralizadas e espalhadas pelo planeta, experimentaram a força dos modernos mecanismos de repressão militar combinados com a força de persuasão dos modernos mecanismos de propaganda e marketing. A sobrevivência do modo de vida comunitário autônomo fora encurralado. Assim, para compreendermos os conflitos atuais na Rússia provenientes da desintegração da URSS – como a guerra na Chechênia – percebemos que o processo de russificação, militarização e repressão constituiu a base das violações dos direitos humanos cometidos na época do governo imperialista da URSS.
A dominação pelo Estado das atividades comunitárias essenciais ao auto-governo social, tradicionalmente exercidas pela própria comunidade e núcleos familiares, se materializou através do surgimento de especialistas: estes passaram a apontar a melhor maneira para administrar a sociedade, gerir a economia, educar, remediar pequenas enfermidades, fazer sexo, lavar roupas, praticar esportes, parir crianças e enterrar os mortos. Indicam também a música da moda, explicam os motivos das grandes guerras e das catástrofes humanas, enfim, retiram de nós próprios as habilidades humanas de agir e emitir opiniões sobre nossas vidas. Aos especialistas do Estado é repassada a incumbência de gestão social. E a especialização da gestão social, por sua vez, nada mais é do que a radicalização da divisão do trabalho, processo capitalista iniciado com a Revolução Industrial, na Inglaterra, e globalizado através das grandes empresas transnacionais, na atualidade.
No caso do Estado soviético, a divisão do trabalho configurou-se na formação de uma classe social de gestores (dirigentes), empenhados em submeter a classe trabalhadora de camponeses e operários à nova ordem dita comunista. A operacionalização e implementação social dos mecanismos de lealdade aos dirigentes foram criados logo a partir das primeiras medidas de Lenin, principalmente na concepção da vetchka (ВЧК – Comissão Excepcional Superior, futura KGB) – os administradores, policiais e funcionários do Partido cuidavam para que toda e qualquer deslealdade significasse ato contra-revolucionário. No que se refere ao papel dos professores, estes já contavam inicialmente com amplo apoio do aparato estatal para universalizar o ensino obrigatório do idioma russo em todas as regiões da União Soviética. A nova ordem bolchevique procurava uniformizar, disciplinar e controlar a totalidade de centenas de povos que habitavam o extenso continente euro-asiático.
Os conflitos decorrentes desse processo, acentuados pela morte de milhões de pessoas com as repressões stalinistas (como a deportação de tchetchenos ordenada em 1944), são a origem das recentes guerras travadas entre o governo russo e os povos de ex-repúblicas soviéticas em torno da questão da autonomia política.


Refugiados

A situação de vida insustentável nas grandes cidades leva milhares de pessoas a fugir para as áreas rurais ou para os campos de refugiados, nas repúblicas vizinhas. Estas alternativas não amenizam os problemas, pois as vilas rurais são constantemente alvo das operações de limpamentos e bombardeios generalizados pelas tropas russas, enquanto a precariedade e a instabilidade da vida nos campos de refugiados não possibilita qualquer esperança para @s chechen@s. Alguns arriscam um novo destino nos grandes centros urbanos da Rússia – como Moscou ou São Petersburgo – encontrando xenofobia, preconceito e repressão da polícia: são eternos suspeitos de terrorismo.

Política do medo cotidiano e a dinamização da indústria da violência

Mas a política de medo cotidiano não é novidade para a população russa, que já enfrentara outrora a paranóia do poder repressivo stalinista, as deportações e assassinatos em massa, a cultura de delatação de inocentes instaurada pelo PC soviético. A diferença é a mudança do alvo desta política de medo cotidiano. Se antes os agentes e espiões do livre mercado capitalista eram os inimigos, hoje as minorias étnicas parecem ser as responsáveis por toda a pobreza e falta de perspectiva na sociedade contemporânea russa: é necessário vigiá-las, julgá-las, caracterizá-las como potenciais suspeitos. Nesse sentido, a desigualdade social é camuflada pela diferença étnica.
Implementada globalmente em nosso planeta após os atentados políticos em 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, a política de medo cotidiano tem dinamizado diversos segmentos econômicos ligados à indústria da violência. O fluxo de movimentação financeira proveniente da ampla cadeia produtiva desenvolvida através dessa indústria – produção de armamentos, serviços de “defesa” e segurança, soldados mercenários, financiamento de redes e atentados terroristas, diversificada produção cinematográfica e midiática, etc – representa o mais fundamental segmento da economia capitalista na atualidade. As vantagens e promoções de produtos militares oferecidos pela Federação Russa atraem um amplo e diversificado leque de consumidores – desde o Brasil (negociações para a aquisição de caça-aviões Sukhoi), ou mesmo o governo venezuelano de Hugo Chavez (instalação da primeira fábrica de fuzis Kalachnikov na América Latina), até o Estado de Israel. Dessa maneira, a guerra na Tchetchênia e suas implicações nas recentes formas de vigilância e controle da sociedade russa têm dinamizado os segmentos econômicos da indústria da violência naquele continente e, até mesmo, na América do Sul. E assim movimenta-se toda a cadeia produtiva da guerra.